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Devemos dar mais valor a J. R. R. Tolkien. E aqui eis o porquê....

Bom dia, RPGistas! Hoje quero falar um pouco sobre J. R. R. Tolkien e sua obra prima em O Senhor dos Anéis, mais especificamente sobre como devemos valorizar e muito o fato de ele ter criado uma obra completa, do início ao fim, com uma qualidade incrível. E falo disso por ter pensado muito sobre o assunto com o recente fim de série de Game of Thrones. Isso me colocou muito a pensar sobre o enorme sucesso que algumas séries de fantasia alcançam, como a minha favorita, a Crônica do Matador de Rei, do Patrick Rothfuss (que começa com O Nome do Vento, vale checar) mesmo antes de sua finalização.



E no que andei pensando? No fato de que hoje, com redes sociais e uma sociedade que consome tudo muito rápido, começamos a ter esse fenômeno de séries de fantasia explodirem mesmo antes de se ter um final. E de alçarmos essas séries a um nível de obra prima cedo demais. E por que falo isso? Bem, porque uma obra prima necessita ser extraordinária do início ao fim. E uma história épica de fantasia é algo extremamente difícil de se finalizar. E é mais difícil ainda dar a ela um fim que satisfaça o seu autor e os seus leitores. Seria como se, por exemplo, Michelangelo fizesse quase toda a Capela Sistina, mas no final fizesse um péssimo acabamento. O que era uma obra prima deixa de ser.

Inclusive, como já falei em muitos lugares, acho que esse é o motivo pelo qual o George R. R. Martin, por exemplo, tem demorado demais com seus livros finais. E creio que a demora do Patrick Rothfuss em terminar o terceiro livro de sua saga também se dê por isso. Eles sabem que finalizar uma história de fantasia é deveras difícil, e sabem que um acabamento ruim pode fazer com o que antes era considerado uma obra prima não o seja. É o que ocorreu com Matrix, por exemplo, que teve seu valor diminuído com as sequências.

E acho que é por isso que devemos valorizar demais o que Tolkien fez. Além de criar uma história fantástica que serviu como base para todo um gênero de fantasia após ele, o autor conseguiu dar um final perfeito a sua obra, algo que ninguém discute, e que é, na realidade, a parte mais difícil em uma obra de fantasia, justamente pelo fato de que, nelas, podemos abrir vários mundos fantásticos, com elementos mágicos e fantásticos, mas satisfazer todas essas linhas que abrimos se torna algo extremamente complexo.

E para se ter uma noção de como é difícil se fechar tais histórias, cito outro de meus autores favoritos, que é Brandon Sanderson. Ele escreve bem rápido, planeja e fecha suas séries. E tem livros maravilhosos. No entanto, ali vejo como é difícil finalizar uma história de fantasia. Pois o desenvolvimento das histórias e de seus mundos, em geral, satisfaz muito mais do que o fim deles, na minha opinião. A maravilhosa saga Mistborn, de Brandon Sanderson (vale ler), como eu disse, é maravilhosa, mas o seu final não considero ser tão bom, satisfatório e poético como o de Senhor dos Anéis. E talvez por isso a saga não seja alçada ao mesmo nível (e o mesmo vale pra outros de seus livros maravilhosos). Mas como disse, essa parte final de um livro de fantasia é algo que pode definir a obra como algo ruim, incrível ou como uma obra prima. E creio que o fenômeno das "obras que parecem que nunca vão acabar" vem do entendimento dos autores a respeito disso. De que o final pode ser a diferença entre uma obra transcendente ou não.

E até por isso, acho que novamente devemos olhar apara o Tolkien e valorizar o que ele fez. Pois sua obra prima, por exemplo, que é O Senhor dos Anéis, foi toda escrita antes de ser publicada. Embora originalmente tenha sido publicada em três volumes, ela fora escrita por Tolkien como uma história longa e única. Ou seja, antes de haver reações do público, especulações e teorias sobre a história, etc, ela já havia sido finalizada. E num intervalo pequeno ela pôde ser experienciada como um todo pelos seus leitores, que podiam assim julgar a obra inteira como uma obra prima ou não. Isso também significa dizer que ela foi escrita, planejada e lapidada como um todo, como se faz em uma grande obra (pinturas, esculturas, etc).

Mas o que quero dizer com isso? Bem, pensem comigo. Digamos que o Martin escrevesse toda a história de As Crônicas de Gelo e Fogo, completa, do início ao fim. Quando ele terminasse, ele poderia olhar para a obra inteira, por completo, e perceber ali quais suas falhas e erros, perceber uma série de acontecimentos e personagens que tinham inflado a sua história e, então, cortar essas linhas de trama da história, poder esculpir a sua obra para deixar somente aquilo que era necessário, para deixá-la perfeita, para torná-la uma obra prima.

Deixe-me dar exemplos mais específicos. No caso de George R. R. Martin, por exemplo, o seu estilo de escrita é deixar que os seus personagens o carreguem. Deixar que eles criem e expandam novas linhas. Isso significa dizer duas coisas:

1) Que algumas dessas linhas podem inflar demais e que, ao se olhar para a obra como um todo, precisem ser cortadas ou esculpidas. Como exemplo dou, do livro, o próprio Euron Greyjoy, que apareceu na série, e também o Aegon Targaryen, que não apareceu, que é um novo personagem a brigar pelo trono e que só aparece muito tardiamente na história. Claramente, o ideal é que esse personagem nunca tenha existido, e por isso George mesmo disse em entrevistas que ficou feliz com alguns dos cortes feitos pelos roteiristas, pois ele mesmo nota que há coisas que não deveriam estar ali para que a história se feche com perfeição, transforme-se numa obra prima. Já o caso do Euron é de outro personagem que entra tardiamente na história com muita promessa e que, sabendo agora como a história termina, gera um grande problema de como continuar seu arco dentro do livro. Isto é, se toda a obra tivesse sido escrita como um todo, poder-se-ia diminuir o impacto dado a como Euron foi apresentado e trabalhado para que fizesse mais sentido o resto do desenvolvimento de seu personagem.

2) Pode ocorrer o contrário também. Você apresenta um personagem como Euron Greyjoy, acha tão fantástica as possibilidades que ele abriu que sente a necessidade de modificar todo o final do seu livro. Se você escrever a obra antes de publicar como um todo, você pode fazer isso e voltar e modificar todo o livro para que isso faça sentido, correto? Sim. No entanto, da forma como As Crônicas de Gelo e Fogo foram publicadas, você não pode. E mesmo que apareçam essas novas linhas, você ou não poderá aproveitá-las ou não conseguirá fechar o seu livro, que é o problema que o Martin está enfrentando agora.

E, por isso, uma vez mais falo como devemos valorizar Tolkien - e seu intensivo trabalho de revisão e de polimento de sua história. Além disso, tal reflexão nos faz pensar em como, talvez, seja necessário estimularmos mais as obras a serem escritas de forma total, por completo, e então incansavelmente lapidadas até serem levadas à perfeição, pois assim teremos obras de fato completas, esculpidas de modo a serem tudo aquilo que podem ser.

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